Projeto Dourados
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Pesquisa

Pesquisa para Melhorar a Saúde Indígena

Povos indígenas têm enfrentado, historicamente, riscos maiores associados a doenças epidêmicas e condições de saúde precárias — e a COVID-19 não foi exceção (Simionatto, Barbosa, e Marchioro 2020). Este projeto dá continuidade a uma colaboração iniciada a partir de um estudo de Albuquerque, Rezende e Simionatto, entre outros coautores, que acompanhou a disseminação de diferentes variantes do SARS-CoV-2 na Reserva Indígena de Dourados (Oliveira et al. 2023).

Nossa pesquisa corrente parte desse trabalho para investigar como a estrutura social influenciou a transmissão da COVID-19 dentro da Reserva. Por estrutura social, entendemos algo simples: quem interage com quem — e com que frequência. A geografia molda essas interações, já que tendemos a nos encontrar mais com pessoas que vivem perto de nós do que com aquelas que vivem longe. Além disso, agrupamentos culturais, étnicos e econômicos também influenciam esses padrões de contato.

O objetivo central desta pesquisa é apoiar os moradores da Reserva Indígena de Dourados na preparação para futuras pandemias. Para isso, desenvolvemos ferramentas computacionais que permitem testar diferentes estratégias de resposta por meio de simulações, ajudando a antecipar escolhas difíceis antes que crises aconteçam.

Embora o trabalho esteja ancorado no contexto específico de Dourados, nossa intenção é que as ideias e métodos desenvolvidos aqui possam ser adaptados para fortalecer a prevenção e o controle de doenças em outras comunidades indígenas no Brasil e em outros países.

A Reserva Indígena de Dourados

A Reserva Indígena de Dourados está localizada no estado de Mato Grosso do Sul, no sudoeste do Brasil, ao lado da cidade de Dourados. Essa região é marcada por longas histórias de ocupação indígena, deslocamentos forçados e políticas estatais que reuniram diferentes povos indígenas em um mesmo território.

Atualmente, a Reserva abriga cerca de 18.000 moradores, distribuídos em duas aldeias: Jaguapiru e Bororó. Jaguapiru é a maior das duas, com aproximadamente o dobro da população de Bororó. A população da Reserva inclui diferentes grupos indígenas, sendo os Guarani Kaiowá e os Terena os mais numerosos.

A organização espacial da Reserva reflete sua proximidade com a cidade de Dourados, mas também mantém dinâmicas sociais próprias. O mapa abaixo mostra a localização da Reserva no Brasil, a relação entre as duas aldeias e a cidade, e os pontos utilizados para vigilância em saúde pública durante a pandemia.

O cotidiano na Reserva depende de uma combinação de instituições coletivas e infraestrutura local. O hospital da Reserva funciona como um ponto central de atendimento e inclui tanto uma capela cristã quanto uma estrutura cerimonial indígena ao ar livre, com fogueira ritual. Além disso, estações públicas de saúde distribuídas pelo território oferecem atendimento básico, e comércios locais atendem às necessidades do dia a dia.

Figura 2: Um passeio pela Reserva. Em frente ao hospital da Reserva (a), da esquerda para a direita: Dr. Paulo, juntamente com o padre da igreja católica próxima ao hospital; atrás do Dr. Paulo, Prof. Simionatto e Cais Simionelli. O hospital possui uma capela cristã ao lado de uma estrutura cerimonial indígena com fogueira ritual (b). Estações públicas de saúde estão distribuídas pelo interior da Reserva (c,d). Comércios independentes, como a Mercearia Conquista, fazem parte da vida cotidiana na Reserva (e).

Como a Estrutura Social Moldou a COVID-19 na Reserva

Albuquerque, Rezende, Simionatto e seus coautores desenvolveram um sistema de sequenciamento genômico e monitoramento epidemiológico para acompanhar a disseminação de variantes da COVID-19 na Reserva ao longo da pandemia. Como o momento de chegada de uma variante pode determinar quais respostas de saúde pública são mais eficazes, esse sistema permitiu confirmar que as variantes do SARS-CoV-2 chegaram à Reserva aproximadamente ao mesmo tempo em que chegaram a outras regiões do Brasil.

No entanto, os padrões observados de transmissão dentro da Reserva não foram uniformes. Em vários momentos, a disseminação da doença pareceu ser moldada de forma específica pela estrutura social, econômica e geográfica da Reserva.

Figura 3: Série temporal da disseminação da COVID-19 na Reserva Indígena de Dourados.
Os gráficos mostram a evolução dos casos por aldeia e por etnia, com eventos importantes destacados.

Em julho de 2020, os primeiros casos de COVID-19 (variante B.1.1) foram detectados tanto em Jaguapiru quanto em Bororó. Nesse momento inicial, porém, os casos estavam restritos a indivíduos da etnia Guarani Kaiowá (Tempo 1 em Figura 3). Cerca de um mês depois, observou-se um aumento acentuado de casos, mas dessa vez quase exclusivamente entre residentes da etnia Terena — e apenas na aldeia Jaguapiru (Tempo 2 em Figura 3).

A variante B.1.1 continuou a circular em Jaguapiru ao longo de agosto e setembro de 2020. Durante esse período, os casos passaram a incluir indivíduos tanto da etnia Terena quanto da etnia Guarani, indicando uma ampliação progressiva do alcance da transmissão dentro da aldeia.

O surto final associado à variante B.1.1 ocorreu vários meses depois e esteve concentrado principalmente na aldeia Bororó (Tempo 3 em Figura 3). Diferentemente das fases anteriores, esse aumento foi impulsionado sobretudo por infecções entre indivíduos Guarani. Como a variante já havia circulado anteriormente em Jaguapiru entre diferentes grupos étnicos, esse padrão sugere que o aumento tardio em Bororó refletiu uma transmissão retardada ao longo de trajetórias de interação entre as duas aldeias, e não uma nova introdução independente da variante.

Um padrão semelhante foi observado após a introdução da variante Zeta (P.2) no final de 2020. Os casos de Zeta aumentaram rapidamente em Jaguapiru durante o período das festas de fim de ano, especialmente entre indivíduos Guarani (Tempos 4–5 em Figura 3). Posteriormente, os casos passaram a crescer em Bororó, novamente concentrados entre residentes da etnia Terena (Tempo 6).

Como muitos indivíduos já haviam sido infectados em ondas anteriores, esse aumento é consistente com uma combinação de novas infecções e reinfecções, e não apenas com a disseminação em uma população totalmente suscetível. Ainda assim, mesmo sob condições de imunidade parcial, a sequência de disseminação entre aldeias e grupos étnicos se manteve.

Consideradas em conjunto, as ondas associadas às variantes B.1.1 e Zeta exibem um padrão recorrente: aumentos iniciais concentrados em grupos e localidades específicos, seguidos por uma disseminação posterior para outros grupos e aldeias. A repetição desse padrão sob variantes distintas — e em contextos com históricos diferentes de infecção — sugere que trajetórias de interação socialmente estruturadas continuaram a moldar a transmissão da COVID-19 na Reserva.

Esses resultados indicam que a disseminação da COVID-19 na Reserva foi moldada não apenas pelo momento de chegada das variantes, mas pela forma como as interações sociais estavam organizadas entre aldeias e grupos étnicos. Em vez de se espalhar de maneira homogênea por toda a população, a doença parece ter seguido caminhos de contato social estruturados, refletindo diferenças na frequência e nos padrões de interação entre grupos. Esses achados motivam uma análise mais detalhada da estrutura social como um fator central na dinâmica de transmissão da doença na Reserva.

Questões em Aberto

Os padrões descritos acima indicam que a estrutura social teve um papel central na disseminação da COVID-19 na Reserva. Ainda assim, algumas questões importantes permanecem em aberto.

Uma possibilidade é que a proximidade da aldeia Jaguapiru com a cidade de Dourados tenha contribuído para taxas mais altas de infecção. Se isso for o caso, estratégias futuras de preparação para pandemias poderiam se beneficiar do foco em moradores que precisam se deslocar à cidade por motivos econômicos.

De forma mais ampla, independentemente de como um patógeno entra na Reserva, é a estrutura das interações sociais que determina como ele se espalha. O desafio é identificar quais formas de agrupar a população — por aldeia, por etnia, ou pela combinação dessas categorias — melhor representam a dinâmica observada da COVID-19.

Projeto de Pesquisa Corrente

Este projeto busca formalizar essas ideias por meio de um modelo epidemiológico baseado em simulações e métodos estatísticos. O modelo representa a transmissão da doença a partir do deslocamento entre a Reserva e a cidade de Dourados, seguido da disseminação local moldada pelas redes de contato entre pessoas.

Utilizamos dados empíricos para ajustar o modelo e identificar quais configurações produzem resultados mais próximos do que foi observado na pandemia. Com isso, buscamos responder a perguntas como:

  • quais agrupamentos sociais explicam melhor os dados observados;
  • se o deslocamento até a cidade teve um papel importante na introdução de variantes;
  • se reinfecções contribuíram para ondas posteriores da doença.

O modelo também permite comparar diferentes estratégias de intervenção quando os recursos são limitados, representando mudanças sociais como alterações nos parâmetros que controlam mobilidade e contato social.

Visão de Longo Prazo

A eficiência é fundamental: recursos são limitados, e não é possível testar intervenções livremente no mundo real durante uma crise sanitária. Modelos e simulações ajudam não apenas a prever cenários, mas também a revelar lacunas em nosso conhecimento.

Essas lacunas indicam onde pesquisas adicionais — como estudos antropológicos ou etnográficos — podem ser mais úteis. Vemos, assim, uma oportunidade concreta de fortalecer a saúde pública em comunidades indígenas, combinando trabalho de campo, colaboração local e ferramentas computacionais.

Nossa visão de longo prazo é construir uma equipe ativa de pesquisadores e estudantes trabalhando em diálogo direto com a Reserva Indígena de Dourados, garantindo que o desenvolvimento de modelos e políticas esteja sempre ancorado na realidade local.

Referências

Oliveira, Laís Albuquerque de, Izabela Mauricio de Rezende, Vinicius João Navarini, Silvana Beutinger Marchioro, Alex José; Leite Torres, Julio Croda, Mariana Garcia Croda, et al. 2023. «Genomic characterization of SARS-CoV-2 from an indigenous reserve in Mato Grosso do Sul, Brazil». Frontiers in Public Health 11 (October): 1–11. https://doi.org/10.3389/fpubh.2023.1195779.
Simionatto, Simone, Marcelo Barbosa, e Silvana Beutinger Marchioro. 2020. «Covid-19 in brazilian indigenous people: A new threat to old problems». Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 53: 1–3. https://doi.org/10.1590/0037-8682-0476-2020.